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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Assistenfar Real - Do abandono ao excesso de uso, a linha tênue da Adesão a medicamentos

          Hoje visitamos um grande família, composta por Dona Ada, Seu Jô e seus seis filhos. As condições de habitação são precárias, mas os pais dia a dia tentam melhorar e zelar pela única herança que podem deixar a seus herdeiros... nas palavras de Seu Jô "a saúde e a educação". 
        Nessa família foi possível identificar como a doença prejudica profundamente um lar. Há 7 meses Seu Jô teve tuberculose, a doença foi diagnosticada quando já necessitava de internação e afastamento do trabalho. O trabalhador de 50 anos perdeu muito peso, mas conseguiu se recuperar aderindo ao tratamento medicamentoso fornecido pelo SUS. Na realidade a adesão foi muito alta, tanto que Seu Jô utilizou o medicamento um mês a mais do estabelecido em protocolo e a possibilidade de ficar novamente doente o faz utilizar a isoniazida sempre que se sente mal... da ultima vez, uma gripe que o fez suspeitar do retorno da doença foi o motivo para tomar o remédio da tuberculose por 7 dias. Estranho isso? Não, me parece comum, é necessário ter a clareza que os pacientes são os gestores de sua saúde e estão certos de tomar a iniciativa disso, apenas necessitam ter acesso a informação e orientação adequada. Foi isso que fizemos e realizamos uma conversa específica sobre o assunto e as possíveis consequências desse episódio. 
          Apesar de tudo, o que me preocupava na casa na verdade não era Seu Jô e sim sua esposa, Dona Ada, que possuía uma relação de amor e ódio com seus medicamentos. Inicialmente trouxe entusiasmada toda sua cesta de medicamentos... de tudo um pouco tinha ali, alguns vencidos, outros empoeirados. Relatava detalhadamente para toda a equipe multiprofissional, todos os seus problemas e saúde; e pra cada coisa um medicamento que havia sido receitado. Falava com propriedade, pois apesar do problema ocular lia todas as bulas e acreditem, isso não era bom! Pois, cada reação adversa em potencial era sentida por ela após alguns dias de uso, o que a fazia sempre escolher os tratamentos que iria deixar de utilizar. Adicionado a este problema, está o fato de utilizar formas farmacêuticas complexas (spray nasal, bombinha de aerossol, colírio) agravava seu quadro de não cumprimento pois as doses tendiam a ser menor pelo uso inadequado.

           
           Realizamos abordagem sobre o uso de cada medicamento, sua necessidade e modo de utilização e verificamos o nível de compreensão da paciente. 
         O que fica de lição, nesta família é que cada pessoa tem sua própria relação com seus medicamentos e seus próprios mecanismos de gestão da terapia. Para que ocorra um resultado adequado da utilização de medicamentos, sem descumprimentos e sem exagero do uso é necessário que o usuário tenha acesso a informação!

Para saber mais: 




*Para preservação das identidades os nomes dos pacientes foram alterados.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

CFF regulamentará prescrição farmacêutica. Conheça como essa prática acontece em outros países

Está em consulta publica no Conselho Federal de Farmácia Brasileiro a Resolução que regulamentará a Prescrição Farmacêutica (clique aqui), nela prevê a autorização de prescrição de medicamentos isentos de prescrição médica, as plantas medicinais, as drogas vegetais e os fitoterápicos isentos de prescrição.



Se essa pratica é uma novidade para a realidade brasileira, em alguns países já é uma atividade regulamentada:

1) Reino Unido: Com diretrizes padronizadas pelo NHS – National Health Service (Sistema Nacional de Saúde Britânico), a prescrição farmacêutica britânica pode se dar de duas maneiras: independente ou suplementar.
Na prescrição independente, o farmacêutico pode prescrever qualquer medicamento para qualquer condição médica dentro de sua competência.
Na prescrição suplementar os farmaceuticos são responsáveis ​​por continuar o tratamento depois de um prescritor independente realizou previamente uma avaliação de saúde. Eles trabalham com o prescritor independente para cumprir um plano de gestão clínica acordada.

Para saber mais confira o documento: Exploring and Evaluating Pharmacist Prescribing



2) No Canadá: a prescrição é permitida aos farmaceuticos, que devem participar de um permanente programa de atualização, com acompanhamento das sociedades de classe. Pode prescrever medicamentos para o tratamento suplementar, condições ou doenças auto-diagnosticada ou auto-limitante, ajustando dosagens e formas farmacêuticas; monitoramento e recarga de prescrições para garantir atendimento adequado e eficaz; fornecimento de suprimentos de emergência de medicamentos previamente prescritos e gestão abrangente terapia medicamentosa, onde o farmacêutico, trabalhando com outros profissionais de saúde, assume toda a responsabilidade por estabelecer e manter a terapia crônica da droga de um paciente.

Outros modelos de prescrição farmacêutica também podem ser encontrados na Austrália, Estados Unidos e Africa do Sul com diferentes níveis de desenvolvimento e abrangência, conforme tabela abaixo:

  

sábado, 20 de abril de 2013

Você sabe o que é Reconciliação de Medicamentos?

A Reconciliação de Medicamentos é uma intervenção feita por farmacêuticos que está se consolidando como uma das principais recomendações internacionais para garantir a segurança do paciente. 




Na reconciliação, o farmacêutico atende um paciente em um determinado serviço de saúde e realiza um estudo detalhado sobre os medicamentos que ele utilizava antes e que utilizará durante ou após o atendimento do serviço seja um hospital ou qualquer unidade de saúde.

Grande parte dos pacientes atendidos em unidades hospitalares, interrompem ou continuam a utilização de medicamentos anteriores a internação de maneira incorreta. Esse quadro causa sérios riscos a segurança do paciente, tanto que organismos internacionais como The Joint Commission incluiu essa atividade como pré-requisito obrigatório para seus processos de acreditação.

Quer conhecer mais sobre a Reconciliação de Medicamentos? 

Então acesse a mais nova sessão do nosso blog com disponibilização de aulas online gratuitas sobre temas relevantes para a Assistência Farmacêutica. Iniciando com a Aula de Reconciliação de Medicamentos gentilmente cedida e produzida pela Farmacêutica Diana Graziele do Santos colaboradora do nosso Blog.

Link para a Aula:

domingo, 14 de agosto de 2011

Farmácia Clinica e Atenção Farmacêutica: Ciências? Práticas? Implicações da falta de consenso.


Neste post gostaria de fomentar um pouco a discussão sobre o descompasso que vivemos entre as definições de Farmácia Clínica e Atenção Farmacêutica. Explicar corretamente as diferenças ou semelhanças entre os termos é difícil até para os pioneiros nessas atividades.
Eu falei atividades? Esta pode ser uma das possíveis diferenças... No Brasil vemos algumas explicações dos conceitos por vezes questionáveis, principalmente no meio acadêmico: há quem entenda Farmácia Clínica como uma atividade especializada do farmacêutico, de apoio assistencial e essencialmente hospitalar (e esta ultima característica nitidamente influenciada pelos pioneiros americanos e farmacêuticos hospitalares brasileiros), a quem diga ainda que é centrada no medicamento, na equipe de saúde ou ainda no apoio do médico (certamente conceitos nada agradáveis aos farmacêuticos clínicos mais humanistas). 
A Atenção Farmacêutica, no entanto, já influenciada por conceitos mais humanísticos, muitas vezes tem sido encarada como uma atividade especializada do farmacêutico de cunho assistencial, porém com uma vertente mais ambulatorial, pela necessidade de manutenção do vinculo com o paciente, acompanhamento deste por meio de consultas e tal. Há quem, no entanto acredite que é qualquer atividade do farmacêutico relacionada com o paciente, muitas vezes confundida com dispensação ou mesmo “conversa” com o paciente. 
Porém vamos tentar relembrar um pouco dos conceitos “oficiais”:

A partir de 1960 foram formulados vários conceitos para Farmácia Clínica, como, “farmácia orientada de forma equivalente ao medicamento e ao indivíduo que o recebe”, “farmácia realizada ao lado do paciente”, entre outros. Segundo o Comitê de Farmácia Clínica, da Associação dos Farmacêuticos  Hospitalares dos Estados Unidos: “A farmácia clínica é uma ciência da saúde, cuja responsabilidade é assegurar, mediante a aplicação de conhecimentos e funções relacionadas com o cuidado dos pacientes, que o uso dos medicamentos seja seguro e apropriado, e que necessita de educação especializada e/ou treinamento estruturado. Requer, além disso, que a coleta e interpretação de dados sejam criteriosas, que exista motivação pelo paciente e que existam interações interprofissionais”.
         Já a Atenção Farmacêutica foi definida pela primeira vez por Hepler e Strand (1990) como a “provisão responsável do tratamento farmacológico com o propósito de alcançar resultados concretos que melhorem a qualidade de vida dos pacientes”. Em 1993 na Declaração de Tókio a Organização Mundial da Saúde define Atenção Farmacêutica como um conceito de prática profissional na qual o paciente é o principal beneficiário das ações do farmacêutico: “é o compêndio das atitudes, os comportamentos, os compromissos, as inquietudes, os valores éticos, as funções, os conhecimentos, as responsabilidades e as habilidades do farmacêutico na prestação da farmacoterapia com o objetivo de obter resultados terapêuticos definidos na saúde e na qualidade de vida do paciente”.
Na Espanha, o Ministério da Saúde e Conselho Geral de Farmacêuticos parecem ter uma tendência a cada vez mais considerar a Atenção Farmacêutica um conjunto de práticas mais objetivas, definindo como: “A participação ativa do farmacêutico na assistência ao paciente por meio da dispensação e seguimento do tratamento farmacoterapêutico, cooperando assim com os outros profissionais de saúde para obtenção de resultados que molharem a qualidade de vida do paciente, promovam saúde e previnam enfermidades”
         No Brasil a proposta de consenso em Atenção Farmacêutica organizado pela OPAS em 2002 define esta como: “Um modelo de prática farmacêutica, desenvolvida no contexto da Assistência Farmacêutica. Compreende atitudes, valores éticos, comportamentos, habilidades, compromissos e co-responsabilidades na prevenção de doenças, promoção e recuperação da saúde, de forma integrada à equipe de saúde. É a interação direta do farmacêutico com o usuário, visando uma farmacoterapia racional e a obtenção de resultados definidos e mensuráveis, voltados para a melhoria da qualidade de vida. Esta interação também deve envolver as concepções dos seus sujeitos, respeitadas as suas especificidades bio-psico-sociais, sob a ótica da integralidade das ações de saúde”
Na proposta de consenso brasileiro, assim como nos consensos espanhóis agregam ainda um novo conceito de seguimento farmacoterapêutico ou acompanhamento farmacoterapêutico, descrito no Brasil como: “um componente da Atenção Farmacêutica e configura um processo no qual o farmacêutico se responsabiliza pelas necessidades do usuário relacionadas ao medicamento, por meio da detecção, prevenção e resolução de Problemas Relacionados aos Medicamentos (PRM), de forma sistemática, contínua e documentada, com o objetivo de alcançar resultados definidos, buscando a melhoria da qualidade de vida do usuário”.
Então podemos perceber que de uma maneira geral os vários documentos de entidades profissionais e governamentais não demonstram um consenso bem definido entre os conceitos. Isso possui um reflexo visível nas políticas farmacêuticas, pois torna-se mais difícil ampliar serviços assistenciais quando os próprios profissionais responsáveis não têm claro o seu papel de sua atuação.
Sem a mínima pretensão de propor qualquer consenso sobre esses conceitos, mas apenas com o objetivo de passar um pouco da visão que tive após várias discussões do XVIII Curso Latino americano de Farmácia Clinica no Chile, do que parece ser a tendência geral de conciliação dessas dúvidas, nos tópicos abaixo:



Daí talvez, tenhamos uma categorização e inter-relação entre os conceitos:




Para que o papel das políticas farmacêuticas centradas na promoção do uso racional de medicamentos seja consolidada como parte de uma política maior de saúde sem dúvida precisamos trazer essas discussões para os espaços institucionais, para as universidades e organizações de classe farmacêutica. Afinal outros profissionais não reconhecerão o nosso papel se nós mesmos não consigamos definir bem os nossos objetivos.